11 de ago de 2011

Sustentabilidade e a abordagem interdisciplinar

As questões ambientais, que tratam da relação homem-meio, ou como alguns preferem sociedade-natureza, exigem para seu estudo e compreensão uma abordagem interdisciplinar. No entanto, apesar da difusão e aceitação desta ideia, a questão ambiental ainda é abordada unilateralmente tanto no plano educacional, quando é tratada principalmente pela disciplina de biologia/ciências, como no plano político-econômico, quando a análise ambiental perpassa somente pela constatação do meio ambiente e o homem aparece apenas como causador de impactos ambientais negativos.

O mesmo se dá também sobre o conceito de sustentabilidade. Quando questionada, as pessoas (de modo geral) relacionam o conceito à preservação e proteção ambiental, porém sabemos que a sustentabilidade é bem mais abrangente do que isso (ver mais no post Economia ecológica: definições e potencialidades), de modo a entender que o conceito de sustentabilidade aqui trabalhado vai além da ideia cooptado pelas políticas neoliberais. Isso fica ainda mais evidente quando as empresas que atualmente incorporam o viés socioambiental em sua imagem promovem ações relacionadas à preservação do meio ambiente, principalmente com práticas mitigatórias como a reciclagem de resíduos, a separação do lixo, o controle no consumo de água, uso de produtos com menor impacto  de produção e descarte, etc. Vi isso recentemente em um dos programas da tv RecordNews, que apresentava um ranking das empresas mais sustentáveis do mundo, onde era abordado somente os quesitos tecnológicos de uso de novos produtos menos poluentes.

Este posionamento também demonstra o quão distante estamos de uma prática realmente sustentável, naquilo que o conceito tem entre os mais inovadores, que é a incorporação da relação homem-meio na análise ambiental.

Por outro lado, Diegues (2001) faz uma leitura crítica deste evento associando à parca participação das ciências sociais com a questão ambiental ao compreender que estas estiveram distante das discussões com tímidas participações, por temerem cair no determinismo geográfico, ou seja, creditar o desenvolvimento do homem/sociedade somente às influências do meio.

Hoje, as ciências humanas são bastante atuantes e desenvolvem diversas pesquisas relacionadas as questões ambientais, como o próprio Diégues com estudos sobre populações tradicionais e o impacto em áreas úmidas (ver mais em NUPAUB), mas o plano político-econômico-educacional ainda está preso à visão unilateral da questão. Talvez pela comodidade desta abordagem, destituindo do homem a capacidade de alterar o contexto de insustentabilidade de suas práticas, senão através do desenvolvimento e uso de tecnologias, sem repensar o modo como socialmente organizada o mundo.

Há mais a ser feito a respeito da crítica e da construção de uma nova visão de mundo e de uma nova estrutura político-econômica-social do que relacionado as novas tecnologias. Georgescu-Roegen (1976) se posicionou neste sentido ao refutar a crença de que toda inovação tecnológica constitui um movimento na direção da economia de recursos baseado em uma concepção de pensamento linear, que há algum tempo tem sido refutado pelas teorias da complexidade.

Observação: Georgescu-Roegen trata em seu texto mais especificamente da questão energética.

Fontes: DIEGUES, Antonio Carlos. Ecologia humana e planejamento costeiro. 2001.
GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. Energy and Economic Myths. 1976.

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