21 de fev de 2012

A Liberdade na cidade

Blog Inferno de Dandi, que também discute o Direito a Cidade

Este é o título de um artigo de David Harvey que li hoje e vai ao encontro de um outro post: Sustentabilidade na urbes – O Direito a cidade.

Com muita pesquisa, Harvey pode explanar na teoria e na prática a territorialização que tem se dado nas principais capitais brasileiras e também em outras cidades mundiais, como são Paulo e Nova Iorque, o que pontua o que foi dito no post anterior, que as cidades não tem sido construída para as pessoas, mas para o capital e aplicação de seus excedentes.
Em linhas gerais (não quero explicar o que Harvey escreveu com maior talento), o capital precisa aplicar parte do excendente gerado por suas práticas para assim gerar mais excedente, no entanto quando  a maioria das possibilidades para aplicação deste excedente se fecham (baixos lucros, alto salários, baixos juros...) o sistema precisa criar novas possibilidades e uma delas é a urbanização.

Desde Paris em 1853 com a construção dos boulevards para aplicar capital financeiro por meio de empréstimos e da construção civil,

“A reconstrução de Paris absorveu enormes quantidades de trabalho e de capital para os padrões da época e, junto com uma supressão autoritária das aspirações da força de trabalho par isiense, foi um veículo fundamental de estabilização social.”

até Nova Iorque em 1942 com a “revitalização” de bairros “decadentes” para a gentrificação, o processo de urbanização tem sido uma escapada efêmera para que o Estado mantenha seus bons negócios com a classe dominante, dessa forma aplica-se o capital excedente e o Estado continua com seu colegiado fiel.

O processo de urbanização como alternativa para aplicação de capital financeiro tem ocorrido até hoje, vísivel nas experiências da cidade de São Paulo. O centro da capital paulista tem sido um dos principais focos deste da urbanização sob a égide da “revitalização”, com a retirada sucessiva dos moradores, os verdadeiros vitalizadores do centro de São Paulo, como se não houvesse vida no centro antes da apropriação do capital . Isto porque existe um novo plano para o centro da cidade, visto o aumento da especulação imobiliária e valorização dos terrenos bem localizados (com acesso a todo tipo de transporte, saneamento, localização, comércio, etc.), por sua vez fruto dos incentivos financeiros para aplicação do excedente.

O Programa Minha Casa Minha Vida é a “personificação” deste processo de incentivo a urbanização que não é feita para as pessoas, posto suas limitações a continuar excluindo para continuar a gerar valor. Neste exemplo a lógica é simples: sob o discurso de promover a habitação para as classes médias, o Estado amplia a área de urbanização, principalmente sobre áreas verdes e/ou protegidas. Para isso, estica a rede de água e esgoto, energia elétrica, transporte e todo tipo de serviço urbano com recursos públicos. Concomitante, os espaços são comercializados ou já estão há décadas especulados para o setor imobiliário que passa a construir e a vender imóveis para a crescente classe média, que faz empréstimos a perder de vista para poder morar em suas latas de sardinha. Neste embróglio, ganha o setor da construção civil, setor imobiliário e os bancos, quem perde são os trabalhadores que, mesmo incluídos neste crescimento do PIB continuam a ganhar salários que jamais pagarão pelas condições ideais de vida.

Mas é evidente que esta alternativa não é a solução, o capital sempre terá excedentes para ser aplicado, assim Paris sucumbiu quando o capital excedente não encontrou mais espaço na urbanização e o mesmo se deu em Nova Iorque:

“Mas os subúrbios haviam sido construídos e a radical transformação no modo de vida que isto sinalizou teve todo tipo de consequências sociais, levando, por exemplo, a primeira onda de feministas a proclamar o subúrbio e o seu modo de vida como o locus de todos os seus principais descontentamentos.”

Para São Paulo e outras grandes cidades em processo de urbanização, só podemos lamentar a perda de nós mesmo na construção do espaço.

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