3 de set de 2011

Barretos e seus apoiadores

A ideia deste post veio com o anúncio das empresas que apóiam e financiam o Rodeio de Barretos. São elas:


Neste caso, também podemos entender que aceitam a forma como a festa é organizada e seus objetivos e o mesmo se sucede aqueles que visitam o evento, legitimando as sucessivas denúncias de maus tratos aos animais.

Em contrapartida, Os Independentes, grupo que organiza a festa de peão, mantém um centro de estudos de comportamento animal – ECOA e, afirmou em 2010 a UOL notícias, que possuem 100% de bons tratos aos animais.
Para a UIPA – União Internacional Protetora dos Animais, a crueldade nos rodeios é inquestionável, tanto pelas provas nas arenas a que são submetidos os animais como durante todo o período de preparação dos mesmos. Nesta última edição, um animal ficou tetraplégico durante uma das provas e foi sacrificado, sendo o ocorrido considerado uma tragédia pelos organizadores do evento. Contudo, este post não tem o objetivo de discutir a questão animal e sim a posição dos patrocionadores e apoiadores do evento.
Em uma sociedade em que a imagem vale mais do que a própria empresa, a preocupação daqueles que financiam Barretos perpassa pela qualidade da informação e da imagem que o evento transmite a sociedade e, no entanto, a questão animal continua a encargo dos grupos protetores e quando nunca pelo Estado, que inclui os casos de maus tratos aos animais no quadro de crimes ambientais, mas que abre excessões aos eventos que geram divisas e promovem seus dirigentes políticos, deixando a cargo do próprio algoz a fiscalização.
Apesar de todos os esforços dos rodeios pelo Brasil afora em mostrar a qualidade no tratamento aos animais, bons shows sertanejos, belas mulheres (comercializando-as, é claro), a opinião pública atenta contra esta imagem produzida:  dentre aqueles que visitam o evento, 96% são contrários aos rodeios com animais (segundo dados do portal R7) e 70% deles não assistem as provas com animais, ficando restritos aos espetáculos musicais.
Não concretizo assim os benefícios que existem para que tais empresas financiem este evento. É uma deturpação da imagem que querem transmitir, especialmente em um momento onde a responsabilidade socioambiental é tão disseminada e cobrada socialmente pelos consumidores atentos, com acesso a informação e a transmissão da mesma.
Para Harvey (1989), a propaganda moderna está imbricada de referências ao dinheiro, ao sexo e ao poder e sem estes ícones, pouco restaria para que ela se realizasse. Baudrillard (1981) complementa ao entender que o capitalismo hoje tem uma preocupação predominante com a produção de signos e imagens, e não com as próprias mercadorias.
Tanto que a continuidade de eventos, nos quais os maus tratos aos animais representam o espetáculo principal, está baseada na manutenção da cultura, reproduzida sem qualquer questionamento como se o que fosse realizado ontem devesse ser reproduzido hoje e como se homem de hoje não fosse resultado de intentos que sofreu durante séculos de desenvolvimento. O mesmo se sucede com a cultura, que não é estática, mas produto de uma sociedade que evolui, (ou não).
A mais, a perpetuação dos rodeios representa a busca pela vida sertaneja idealizada, pela liberdade no campo na incorporação do cowboy no teatro da arena, quando todo esse modo de vida já deixou de existir, surgindo assim questões mais profundas de significado e interpretação relacionado às construções pós-modernas da realidade.
“Quanto maior a efemeridade, tanto maior a necessidade de descobrir ou produzir algum tipo de verdade eterna que nela possa residir. (...). O retorno do interesse por instituições básicas e a busca por raízes históricas são indícios da procura de hábitos mais seguros e valores mais duradouros num mundo cambiante.” (HARVEY, 1989, pág. 260)

Assim, no mundo da efemeridade, a construção da identidade sertaneja tem de se arraigar no poder motivacional da tradição, imitando comunidades anteriores que representam o rural, mas que hoje não passa de uma tradição mercadificada e comercializada como tal e que não está imune à distorção ou à falsificação de acordo com os interesses do capitalismo.

Continua...

Fontes:
HARVEY, D. Condição pós-moderna. 1989.
BAUDRILLARD, J. For a critique of the political economy of the sign. 1981.

Nenhum comentário: