12 de set de 2011

A mudança virá da coletividade

Após escrever o post Grito doExcluídos, acabei recebendo um artigo publicado na revista Carta Capital, por Matheus Pichonelli que, entre outros assuntos, questiona os protestos e movimentos vazios de posições políticas, mais especificamente o evento que ocorreu no 7 de setembro, no vão do Masp, em SP.



O mais interessante foram os comentários, a maioria deles revoltados com a posição do jornalista, entendidas como contrárias a qualquer manifestação pública e/ou contra o governo.

Entendo que a grande quantidade de manifestações e movimentos que existem hoje são reflexo de uma crença individualista de que a mudança social se dá pela soma das mudanças individuais, conforme Guattari, ou quando cada um fizer sua parte, quase um slogan dos ecochatos.

A mudança social e também ambiental está além de nossa capacidade de separar e reciclar nosso lixo, como nossa adepta ministra do Meio Ambiente diz contribuir para a questão ambiental, do nosso tempo debaixo do chuveiro, se substituímos nossas sacolas plásticas ou de quantas folhas de papel utilizamos... isso tudo é apenas a externalização dos custos da produção capitalista repassado para a sociedade, até porque se fossem interiorizados, muitas iniciativas privadas seriam inviáveis.

Ninguém questiona (inclusive a categoria dos próprios ambientalistas) a quantidade de insumos e recursos que a indústria utiliza, mas incorpora no espaço doméstico a economia de água e energia devido as suas altíssimas taxas, que nem todos podem pagar, excluindo estes de direitos fundamentais. Não julgam a quantidade de embalagem presente nos produtos comercializados ou a propaganda que introduz as crianças no mercado de consumo, mas pressiona a população a repensar quantas sacolinhas plásticas usa para carregar suas compras. 

Os primeiros indícios de mudança ocorrerão, nesta linha, quando o setor privado, na cidade e no campo forem cobrados por suas externalidades ambientais, sociais e econômicas e, para isso, uma nova organização política é fundamental, que onere de forma justa a sociedade civil e o setor privado, proporcionalmente.

Um bom exemplo desta injustiça é a cobrança sobre a preservação dos recursos hídricos e do consumo de água. A sociedade civil é responsável por 10 % do consumo, o setor industrial por 20% e o setor agrícola por 70%. No entanto, as campanhas e os altos custos do acesso a água são direcionados quase que exclusivamente para a sociedade civil, que consome a menor parte! Contraditoriamente, o governo estimula e financia grandes projetos no campo que venham a produzir uva e melão no sertão nordestino, que sabemos possuir condições inadequadas para tal plantio ou o apoio a energia nuclear, que se diz limpas, mas necessidade de ...quantidade de água e não sabe o que fazer com seu resíduo radioativo. O mesmo ocorre com o setor industrial, que consome grande volume de água e elimina seus efluentes irresponsavelmente e a mínima gestão ambiental ainda é um opcional de marketing, conhecido como o evangelho da eco-eficiência.

O evangelho da eco-eficiência é a crença de que a promoção do desenvolvimento sustentável está nas mãos das instituições, especialistas e tecnoburocratas, que desenvolverão tecnologias e mecanismos para conduzir o planeta ao famigerado modelo.

O tema é bastante discutido pela justiça ambiental que, entre outros princípios, visa assegurar que nenhum grupo social suporte uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas de operações econômicas e decisões políticas.

Portanto, a origem da crise social e ambiental e sua solução residem no processo que ocorre entre sociedade e natureza, relacionado a uma rede de poder e desigualdade inerente ao capitalismo, e não na mudança comportamental do indivíduo, conforme disseminado por programas de educação ambiental, presente no movimento dos neocarapintadas do vão do Masp e exposto na indignação dos leitores do artigo da revista.

Fontes:
Caderno das águas. Prefeitura de São Paulo/SVMA.
Imagem - Blog do Onyx

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