29 de jul de 2011

Monoculturas da Mente

Neste artigo, tentarei mostrar uma das facetas da atual crise ecológica. Esta faceta diz respeito a concepção ideológica utilizada para legitimar a dominação econômica, social e política de diversos povos e culturas e perpassa por questões das formas de saber e poder hegemônicos do sistema capitalista.

De fato, vivemos uma crise de percepção e de valores baseados numa ideologia antinatural, chamada por Vandana Shiva de monoculturas da mente. Esta ideologia homogeneizante e dominadora materializa-se em políticas, saberes, métodos e técnicas que negam e desqualificam os saberes locais e tradicionais, a diversidade, a qualidade e a própria vida!

Estas monoculturas da mente estão enraizadas em nossa sociedade, suas instituições e em nós mesmos, em nosso modo de nos relacionar e agir. Ela opera por meio de um controle sócio-cultural, político e econômico. É propagandeada aos quatro cantos pelas instituições públicas e organizações que controlam o grande capital, como se fosse a única alternativa para se gerar desenvolvimento e garantir qualidade de vida para todas as pessoas.

No entanto, esta ideologia também gera modos de produção que destroem a diversidade erodindo diversas culturas, legitimam a degradação ambiental como sinônimo de progresso e negam a alteridade gerando discriminação e violência.

Verificando a origem dessa ideologia, descobrimos que ela é fruto de uma racionalidade que se desenvolveu e se aperfeiçoou com o progresso do capitalismo como sistema econômico dominante. Apesar de sua abrangência global, é uma racionalidade também local, pertence a uma sociedade e cultura específica, qual seja, o norte ocidental.

Para nós, países do dito terceiro mundo, é muito vívida essa colonização ideológica, pois são causa primeira de nosso subdesenvolvimento. Mas esta situação, ao contrário do que nos levam a crer, não é um atraso na corrida pelo crescimento econômico, e sim fruto do aniquilamento de nossos potencias próprios para um desenvolvimento sustentável, baseado em nossa diversidade, cultura, recursos ambientais e saber. Essa aniquilação de nossos potenciais opera por duas vias principais: primeiro, negando-se e desqualificando as formas autóctones de saber e fazer e em segundo, destruindo a realidade sobre a qual residem esse saber e esse fazer. Como assim? Eu explico.

A negação e desqualificação de nossas culturas locais é uma forma silênciosa de violência. Taxam-nas de primitivas e anti-científicas, pois as monoculturas da mente não possuem capacidade para ver e aceitar outras formas de conhecimento e apreensão do mundo fora aquela baseada no velho paradigma cartesiano-mecanicista. Ainda, destroem nossa condição de sobrevivência, superexplorando os ecossistemas, criando a uniformidade e homogeneidade, apropriando-se do conhecimento tradicional e privatizando os recursos naturais.

Estas práticas envolvem a desestabilização do equilíbrio dinâmico dos ecossistemas e a criação de diversas vulnerabilidades, pois quanto mais diversificado e heterogêneo for um sistema natural, mais capacidade de resposta à impactos e influências externas este possui. As mesmas práticas Implicam também em uma incompatibilidade entre igualdade e justiça, pois rompe a coesão social polarizando entre os que possuem acesso (poder) e os que não possuem.

Diante do exposto, podemos concluir que a diversidade, sua manutenção e evolução, é uma alternativa à monocultura em sua forma ideológica. Viver a diversidade da natureza corresponde vivê-la também na sociedade e na cultura, pois todas são fontes de riqueza e alternativas.

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