25 de set de 2011

Alimentação e cidadania

Nos últimos dias li dois artigos que tratavam da questão alimentar, mas com objetivos diferentes, apesar de complementares.

Um deles tratava da associação entre aumento da renda e o perfil nutricional e o outro artigo em como nós enquanto consumidores, nos relacionamos com o alimento e com as questões sociais e ambientais que estão por trás do produto.



O primeiro artigo revela que houve um aumento da renda da população brasileira e consequentemente um aumento da compra de produtos alimentícios, mas nem sempre com valor nutritivo maior, o que tem provocado aumento dos casos de obesidade e doenças crônicas vinculadas ao tipo de alimentação. Para resolver a questão, ele sugere que haja uma legislação mais rígida para as propagandas dirigidas a crianças e adultos, um programa educacional de educação alimentar e um controle estatal com os gastos públicos com alimentos, como no caso do programa Bolsa Família, que seria necessário uma orientação em como gastar o benefício.

Já o segundo artigo trata da questão da dieta como um recurso pedagógico, quando por meio de questionamentos sobre os alimentos, sua origem, relações de trabalho associadas, formas produtivas, logísticas, etc., as pessoas possam compreender as relações de interdependência que temos uns com os outros e com o  meio, favorecendo comportamentos de cooperação, gentileza e cidadania.

Assim, ambos artigos apresentam a questão alimentar a partir de uma outra ótica, que não a produção e distribuição dos alimentos e que, portanto, os problemas alimentares existentes hoje não estão restritos somente a estes fatores.

Há mais de 50 anos o médico Josué de Castro já apontava nesta direção. Seu livro clássico, Geografia da Fome, atentava para as diferenças alimentares regionais e as deficiências associadas, que nem sempre continham uma relação de causa e efeito entre pobreza e saúde. Em sua experiência, pode perceber que havia mais deficiências alimentares na população que vivia favelizada em centros urbanos, ou seja, localizados em local de fácil acesso a todo tipo de alimento e programas de ajuda governamental, do que aqueles que viviam sob o flagelo das secas no sertão nordestino.

Na questão midiática o problema é outro, sobretudo porque os equipamentos de comunicação, como a televisão e os jornais, se defendem das possíveis limitações impostas pela lei com o direito da liberdade de expressão. Bombardear crianças com alimentos pobres em nutrientes para uma faixa etária em que eles são fundamentais, apelando para animais falantes e coloridos em programas infantis não fere o direito deste grupo ter acesso a um alimento rico, equilibrado e adequado e a uma propaganda que os respeite? A mais, o crescimento da obesidade infantil no Brasil é seguido por um programa governamental de alimentação saudável sem questinar a mídia direcionada.

A construção de uma sociedade saudável, no que diz respeito a alimentação, passa também pela formação de cidadãos conscientes daquilo que consomem e como consomem. Questionar de onde vem seu alimento e como ele foi produzido exige que repassemos nossos princípios em relação aos outros e ao meio, nossas escolhas muitas vezes estão associadas a estes posicionamentos. Não quero dizer aqui que acredito que mudanças de comportamento provoquem alterações estruturais, penso que seja somente uma questão de formação de consciências, auto conhecimento e cidadania.

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